Verdade

 Ultimamente, dei por mim a desenvolver uma rotina quase meticulosa, como se estivesse a preparar uma estratégia de xadrez antes de cada passo. Antes de sair para qualquer lado, faço questão de avaliar o ambiente à minha volta, assegurando que a minha presença – ou a de outra pessoa – não venha a perturbar o equilíbrio do meu bem-estar.

Por exemplo, quando levo o meu filho ao parque municipal, o que fica mesmo ali ao pé de casa, não saio de casa sem antes espreitar quem lá está. Se vejo alguém cuja companhia prefiro evitar, dou meia volta e apanhamos o autocarro para outro parque. O objetivo é simples: desfrutar de momentos de qualidade com o meu filho num ambiente onde me sinta à vontade.

Nas festas, o cenário é semelhante. Antes de lançar-me na pista de dança, faço um pequeno reconhecimento do espaço. Quando a "costa está livre", não hesito e danço como se ninguém estivesse a ver. Se, no entanto, a "frente de batalha" estiver ocupada, recuo alguns passos e encontro um lugar mais recatado, sem deixar de celebrar a vida com a mesma alegria.

Há, porém, uma exceção a toda esta cautela estratégica: a missa. Para a missa, vou sempre à vontade, o que torna ainda mais irónico o facto de a pessoa que ando a evitar informar, não vou á igreja tal, uma certa pessoa que sei, com toda a certeza, que não irá aparecer na igreja. Sei disso desde os tempos em que ainda não a evitava, e foi precisamente essa certeza que me levou a converter-me ao catolicismo com tanta entrega e convicção. Sei que nunca a vou encontrar na missa, o que faz deste momento um verdadeiro oásis de tranquilidade. Já a procissão, essa é outra história – ela pode muito bem ir, fazer o que entender, que eu não vou de certeza. E o motivo? É simples: evitar partilhar o mesmo espaço.

Assim vou a navegar pela vida, com a destreza de quem sabe que, às vezes, é mais sábio escolher os lugares que frequenta e as pessoas com quem os partilha.








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