Dom divino

 Vivemos numa era gloriosa, não vivemos? Uma época onde a estupidez é celebrada como se fosse um dom divino, uma bênção para os poucos iluminados que ainda conseguem encontrar uma sinapse funcional no meio desta confusão de cérebros subdesenvolvidos. E no meio deste caos, é claro, as mulheres — ah, as mulheres! — continuam a ser místicas criaturas com uma capacidade quase sobrenatural de prever o futuro. Não me refiro à capacidade de perceber que, se o companheiro está a sair todas as noites sem dar justificações, algo de errado se passa. Não, isso seria básico demais. Falo daqueles “presentimentos” que as levam diretamente ao escritório da bruxa do bairro, com a mesma determinação de quem vai ao supermercado comprar pão.

Mas eu cá estou, a olhar para este circo de absurdos com a tranquilidade de quem já viu de tudo. E olhem, quando digo “de tudo”, incluo também a minha suposta parente, que tem um talento inato para adivinhar... que vai errar em todas as suas previsões! Como é que se adivinha isso, perguntam vocês? Não faço ideia, mas aparentemente, ela conseguiu. Ora, ela enganou uma pobre velha, coitada, ressabiada de vida, que se viu a desembolsar mais de 2500€ para que o amor da sua vida — ou melhor, o velho ressequido dos seus sonhos — ficasse “amarrado” a ela para toda a eternidade. A minha “familiar” não falha! Quer dizer, falha nas adivinhações, mas nunca falha em arranjar uma maneira de burlar alguém.

E claro, como qualquer boa vigarista, ela tem um truque na manga que é de uma originalidade desconcertante: o famoso feitiço do ovo. Sim, um ovo! Mas este não é um ovo qualquer, não senhoras e senhores. Este é um ovo com destino. Depois de entoar o seu ritual sagrado — que consiste em entregar o ovo a uma coitada que só por acaso estava no carro com ela —, a outra tem a brilhante missão de se livrar do dito cujo numa encruzilhada. Mas, como qualquer grande operação estratégica, surgem sempre alguns imprevistos. A minha parente, como grande comandante desta epopeia, ordena à outra que jogue o ovo pela janela em movimento, enquanto dão voltas e voltas numa rotunda. Uma cena digna de uma comédia de segunda categoria. Depois de umas seis voltas à rotunda — porque, claro, a primeira tentativa nunca é bem-sucedida —, lá atiram o ovo pela janela. Mas a missão não correu exatamente como planeado: o ovo, possuído pelo espírito do humor negro, não só não foi parar à encruzilhada como também acertou em cheio no carro da senhora que seguia atrás. E para a cereja no topo do bolo, o carro ficou todo sujo.

Agora digam-me, como é que uma história destas não aparece no “Gato Fedorento”? É que a coisa tem tudo: idiotice, superstição, vigarice e um final que só podia ser escrito pelos deuses da comédia. E assim vamos vivendo, numa sociedade onde a estupidez é um modo de vida, e onde até um ovo tem mais protagonismo que a inteligência

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