Curta

 Hoje, ao chegar a casa depois de um dia atribulado, fui recebida com o entusiasmo habitual da minha fiel companheira, a cadela mais alegre e efusiva que alguma vez tive o prazer de conhecer. Só que, desta vez, o seu entusiasmo parecia ter um quê de desespero, como se a urgência de sair para a rua fosse uma questão de vida ou morte. E, para ser honesta, talvez fosse, do ponto de vista dela.

Lá fomos nós, eu e ela, descendo as escadas do prédio a uma velocidade que só um cão em plena excitação consegue impor. É sempre assim: apesar de eu viver no terceiro andar, o caminho para baixo nunca parece demorar tanto quanto a subida de volta, especialmente depois de uma volta ao quarteirão.

Mas, claro, como se a minha vida fosse uma comédia de costumes, algo tinha que acontecer. No segundo andar, o Sr. Manuel, o meu vizinho mais falador, decidiu sair ao mesmo tempo que eu passava, e não conseguiu resistir à tentação de um comentário.

"Então, menina, a passear a princesa? Ela hoje está com a corda toda, hein?", disse ele, com aquele sorriso que é metade amável, metade travesso.

Eu, que já estava praticamente a ser arrastada escadas abaixo pela força de uma cadela em plena adrenalina, só consegui responder com um aceno apressado e um sorriso nervoso. A "princesa", entretanto, nem sequer lhe lançou um olhar — a sua mente estava claramente focada noutra prioridade.

Ao chegarmos finalmente ao rés-do-chão, confesso que soltei um suspiro de alívio. Achava eu que o pior tinha passado... mas enganei-me redondamente. A porta do prédio, que normalmente se abre com facilidade, resolveu encalhar justo naquele momento. E lá estava eu, a tentar abrir uma porta teimosa com uma mão, enquanto segurava uma cadela impaciente com a outra.

Depois de alguns segundos de luta — que me pareceram uma eternidade — consegui finalmente libertar-nos da prisão do prédio. A minha cadela, como que percebendo que a sua oportunidade de liberdade tinha chegado, disparou para fora, arrastando-me atrás de si. A cena deve ter sido digna de um filme cómico: eu, desengonçada, tentando manter a dignidade enquanto ela, feliz e satisfeita, seguia direto ao seu lugar preferido do passeio.

Assim, mais uma vez, lá fomos nós as duas, enfrentando o mundo, uma escada e uma porta teimosa de cada vez. E, enquanto subíamos de volta ao terceiro andar, mais devagar e já sem a urgência inicial, não pude deixar de pensar no quanto estas pequenas peripécias do dia a dia me fazem sorrir. Afinal, não é a vida feita desses momentos em que o absurdo se mistura com o corriqueiro, transformando o simples ato de passear uma cadela numa verdadeira aventura?








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