Conversa

 Ora bem, meus caros, deixem-me contar-vos sobre o meu mais recente encontro com o maravilhoso mundo do esoterismo. Estava eu, numa dessas belas manhãs em que o café ainda não fez o seu trabalho e o cérebro ainda está em fase de arranque, quando cruzo o meu caminho com uma senhora que, devo admitir, tinha o sorriso mais simpático que vi desde que o vendedor de carros usados me disse que o "carro só tinha tido um dono e era uma velhinha que só o usava para ir à missa".

A conversa fluiu com a naturalidade de quem se sente à vontade a discutir o sexo dos anjos com um seminarista. Ela era uma dessas pessoas que sabe de tudo um pouco, tipo Wikipédia em forma de gente, só que com menos referências e mais opiniões. No meio de tanta simpatia e troca de ideias, lá trocámos números de telemóvel. Coisa inocente, pensei eu. Mal sabia eu que estava a dar o meu contacto a uma espécie de guru espiritual de bolso.

Agora, imaginem a cena: depois do almoço, já eu estava no voluntariado, porque sim, sou dessas almas generosas que acha que o mundo pode melhorar com um bocadinho de boa vontade e muito sacrifício – dos outros, claro – quando recebo uma mensagem no WhatsApp. Era a tal senhora, pronta para mais uma rodada de conversa animada.

A esta altura, já a madrinha tinha feito as malas e fugido para passar uns dias com a família, e eu fiquei sozinha a segurar as pontas, a pensar que o universo tinha decidido testar a minha paciência. Respondi, como quem responde a um e-mail do chefe às 18h de uma sexta-feira, naquela onda de "Vamos lá ver onde isto vai dar".

Foi aí que ela me larga, sem aviso prévio, um "Sou reikiana, adoro pedras, cristais, energias, mantras..." E eu, meus caros, eu senti uma súbita e inexplicável urgência de arrumar a casa. Não sei se foi o alinhamento dos chakras ou se alguma pedra mágica se virou contra mim, mas a minha casa começou a parecer uma zona de guerra e eu uma Marie Kondo possuída, decidida a fazer uma triagem ao guarda-roupa como se a minha vida dependesse disso.

E, assim, deixei a senhora pendurada, esperando ansiosamente que eu respondesse com o mesmo entusiasmo. Em vez disso, tudo o que consegui escrever foi: "Desculpe, não tenho tempo para falar agora". E archivei a conversa, porque há coisas na vida que, sinceramente, são como aquele cheiro esquisito no frigorífico: melhor ignorar e esperar que desapareça.

Agora, o plot twist: descobri que a simpática senhora é dona de um armazém. Uma sociedade! E pensei – porque às vezes sou otimista ou masoquista, ainda não decidi – que trabalhar para ela poderia ser interessante. Imaginem a cena: eu, sempre com uma tirada sarcástica na ponta da língua, e ela, a equilibrar energias e a polir cristais. Seria a versão espiritual do "Patrões Fora", com cristais no lugar de risos enlatados.

Mas, enquanto a senhora está lá a pensar que talvez eu esteja a meditar profundamente sobre o universo e a preparar uma resposta iluminada, eu estou aqui a pensar se devo ou não sair deste armário de arrumações onde me enfiei para escapar às "boas vibrações" e ao convite para alinhar os meus chakras com os da sociedade dela. Afinal, como é que se responde a um convite para trabalhar num armazém onde as pedras provavelmente têm mais vida social do que eu?

Portanto, aqui estou, a ponderar se devo responder ou simplesmente arquivar a situação de vez e deixar que os cristais decidam o meu destino. A vida, afinal, é uma grande piada cósmica e, neste caso, eu sou o punchline, melhor esperar que o universo decida o que fazer a seguir. Afinal, não é isso que os reikianos fazem?

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