Reflexão: despedida
Cheguei em casa hoje e senti a necessidade de conversar com meu marido e minha filha sobre algo que sempre me inquietou. Não gosto da ideia de velórios, essa exposição do corpo para convenções sociais e hipocrisias. A dor da perda, para mim, é algo íntimo, pessoal, e não deve ser transformada em um espetáculo. Reflito sobre a vida e percebo que o valor das pessoas está na forma como são lembradas pelos que realmente as conhecem, não por aqueles que só observam de longe e julgam sem realmente entender. O que importa é a presença diária, as conversas sinceras, os momentos compartilhados, não um breve adeus rodeado de formalidades e falsas demonstrações de afeto. Imagino um momento final diferente, sem alardes, onde minha partida seja conhecida apenas por aqueles que verdadeiramente compartilham a minha jornada. Gostaria que, quando chegar essa hora, tudo fosse feito de forma discreta e respeitosa. Não quero que ninguém seja avisado, não haverá agência da terra, e meus filhos e marido não usarão luto. Quem está comigo em vida, quem realmente me conhece e valoriza, esses são os que quero ao meu lado até o fim. Mesmo que estivesse doente, não comentaria com ninguém. Somente compartilharia se fosse para deixar alguém mais descansado, alguém que tivesse um desejo de ver-me partir, não ficaria magoado eu desabafava e era um alívio para ambas as partes. Só então diria, pois a verdade deve servir ao conforto daqueles que amamos, não à curiosidade ou julgamento alheio. Aos que realmente se preocupam comigo, não diria nada, apenas aproveitaria sua amizade ao máximo, sem causar sofrimento desnecessário. Não quero que ninguém se sinta obrigado a participar de algo que não condiz com minha essência. Prefiro que continuem a falar de mim, para o bem ou para o mal, como sempre fizeram. Porque, no fundo, o que mais importa é a verdade da convivência e a autenticidade das relações que construí. Essa reflexão trouxe-me uma paz inesperada. Saber que posso compartilhar esse desejo com minha família me alivia e faz-me sentir compreendida. No final das contas, a forma como escolhemos ser lembrados e celebrados deve refletir quem somos em vida, e não as expectativas de quem nos observa de fora. Assim, sigo em frente, valorizo cada dia, cada pessoa que realmente importa, e cada momento de verdade que a vida ainda me reserva.
Comentários
Enviar um comentário