A Sublime Ironia de Viver sem Fazer Mal a Ninguém
Viver a vida sem fazer mal a ninguém parece, à primeira vista, um conceito simples, quase pueril em sua pureza. É uma dessas ideias que encantam a imaginação dos poetas e dos filósofos, como um farol de moralidade a brilhar na vastidão escura das nossas imperfeições humanas. No entanto, a aplicação prática dessa utopia moral frequentemente se revela tão escorregadia quanto tentar apanhar um sabonete molhado.
Imaginemos, por um momento, um mundo onde cada indivíduo compromete-se a não causar dano aos outros. Aparentemente, seria um paraíso de harmonia e cooperação, onde a violência e a malícia são substituídas pelo diálogo e pelo consenso. Entretanto, basta um leve arranhar da superfície para perceber que a verdadeira essência dessa filosofia é mais complexa e, ironicamente, nem sempre tão benévola quanto poderíamos supor.
Há quem diga que evitar fazer mal aos outros é o mínimo exigido de qualquer ser humano civilizado. No entanto, vivemos em um tempo onde a mera existência pode ser ofensiva para alguns. Como, então, navegar nessa selva social onde cada palavra e cada ação são potencialmente uma ofensa a espera para ser percebida? Talvez, seja necessário adotar uma postura quase estóica, onde se tenta, com genuína sinceridade, resolver os conflitos através do diálogo e do consenso.
Tentar resolver desavenças pelo diálogo é, sem dúvida, uma abordagem civilizada. Porém, não nos enganemos: há uma sutil ironia no facto de que, muitas vezes, aqueles que mais clamam por diálogo são os mesmos que menos estão dispostos a ouvir. O consenso, por sua vez, é uma meta tão nobre quanto utópica. Afinal, o que é o consenso senão o compromisso mútuo de abrir mão de algo que nos é caro? Pode-se argumentar que, em uma sociedade verdadeiramente pluralista, o consenso é a arte de disfarçar a insatisfação de muitos sob a ilusão de um acordo comum.
Para aqueles que, ainda assim, acham que não conseguirão alcançar um terreno comum, resta o sábio conselho de seguir em frente, deixar para trás, mudar. Há uma elegante sabedoria na ideia de desapego, embora ela muitas vezes seja confundida com a indiferença. Mudar é, na verdade, uma das ações mais revolucionárias que alguém pode empreender. E, se tudo mais falhar, rezar para que Deus nos conceda a graça de sermos pessoas mais felizes pode parecer a última cartada de um espírito exausto, mas não menos válida por isso.
No fim das contas, viver sem fazer mal aos outros é um ideal que vale a pena perseguir, não porque seja fácil ou porque garanta resultados perfeitos, mas porque desafia-nos a ser melhores do que somos. E se, nesse percurso, falharmos ocasionalmente, talvez possamos encontrar consolo no facto de que, ao menos, estamos a tentar. Porque, no fim das contas, tentar ser uma pessoa melhor é, por si só, um ato de bondade.
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