" O menino do abraço faz 10 anos"
Hoje é dia 13 de setembro.
Na cronologia portuguesa, este dia tem memórias, marcos, efemérides: foi a 13 de setembro de 1759 que, sob o peso das intrigas políticas e da mão férrea do Marquês de Pombal, os Jesuítas foram expulsos do território português; é também data que ecoa no calendário litúrgico, dia de São João Crisóstomo, a “boca de ouro”, mestre da palavra e da reflexão espiritual; e no calendário civil, tantas vezes serve de cenário a regressos às aulas, à azáfama das rotinas que renascem após o verão. Mas há ainda um marco que transcende a História e se inscreve na fé: a 13 de setembro de 1917, em Fátima, os pastorinhos receberam uma das aparições de Nossa Senhora, testemunhada por milhares que, na sua simplicidade, acreditaram no milagre da presença.
E no entanto, para mim, acima de qualquer peso histórico, cultural ou religioso, o dia 13 de setembro é o dia do amor, é o dia da dádiva que me foi confiada: o nascimento do meu filho.
O meu menino nasceu nesse 13 de setembro, e trouxe consigo uma luz que nenhuma efeméride poderia igualar. Ele é de cabelo preto, denso e macio como um campo fértil à sombra da noite, uma moldura que lhe emoldura a pele clara, de tez translúcida e viva, como se guardasse dentro de si o brilho dos astros. Os olhos — castanhos que se inclinam ao verde, conforme a luz lhes toca — são lagos inquietos, ora profundos, ora travessos, mas sempre transparentes como quem não sabe, nem deseja, disfarçar a verdade. Os lábios, delicados e cheios de expressão, são a moldura dos sorrisos que me devolvem ao mundo quando o mundo me fere.
Mas o meu filho não é apenas aparência. Ele é sinceridade sem máscaras. É honestidade que não conhece atalhos. É bondade natural, tão rara e tão genuína que parece herança de tempos em que os homens ainda acreditavam no valor do gesto simples. É carinhoso, é gentil, é sentimental, e sobretudo é inteligente — de uma inteligência que não se mede em notas escolares, mas no olhar curioso que decifra padrões invisíveis, na forma como pergunta, como associa, como descobre o inesperado.
Recordo ainda quando, pequenino, com apenas dois anos e poucos meses, já fazia contas com uma naturalidade desconcertante. A irmã, mais velha e cúmplice, baptizou-o de “Number Boy”. E o nome colou-se a ele, como se fosse mais do que uma alcunha: uma identidade secreta, quase um título. O nosso suricata — ágil, atento, de espírito vivo e sempre de pé perante o mundo.
Mas se tivesse de o definir numa só imagem, eu diria que ele é o menino do abraço. Aquele abraço doce, sem reservas, que aperta e conforta, que devolve a paz aos dias inquietos e dá sentido aos silêncios. O abraço dele é bússola e é casa, é memória do que me tornei quando me tornei mãe.
Hoje o meu menino faz dez anos. Dez anos de vida e de amor, dez anos que são também dez anos meus, porque nele me descubro, nele me espelho, nele me reinvento. Dez anos de uma história que começou num 13 de setembro e que continuará a escrever-se enquanto houver em nós fôlego, ternura e futuro.
E neste dia, que é histórico para muitos, religioso para tantos e íntimo para mim, ergo o pensamento em silêncio e repito: nada na História de Portugal é mais importante para mim do que este dia. Porque foi neste dia que nasceu a minha eternidade.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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