"Aprender"
Apesar das exigências do trabalho, da casa, da família e da fé que me sustenta, nunca deixo de estudar, de questionar e de aprender. Tenho ainda tanto para aprender, tanto para descobrir, que cada dia me parece sempre insuficiente para a vastidão do conhecimento que desejo alcançar. Muitas vezes perguntam-me de onde surgem as ideias que escrevo, qual é a fonte que as alimenta. Respondo, invariavelmente, que brotam da minha própria mente: dessa máquina extraordinária e complexa que é o cérebro, com os seus labirintos de memórias, experiências e pensamentos, onde a criatividade se insinua como uma centelha inesperada.
Lamento, contudo, que tantos tenham abdicado de usar esta dádiva inestimável com que nasceram. Preferem o simples, o já feito, o que se apresenta como lógico, racional e conveniente — numa aparência de inteligência que raramente toca a verdadeira profundidade do pensar. Eu, pelo contrário, quero muito mais do que parecer: quero ser.
Tudo o que escrevo assenta em conhecimento conquistado com esforço, através da leitura, do estudo persistente, da pesquisa contínua. É um labor exigente, muitas vezes solitário, mas também profundamente gratificante. Os meus filhos aprenderam, pelo exemplo, que não podemos permitir que a aprendizagem cesse; ao contrário, deve ser alimentada todos os dias com a mesma sede com que se busca o pão ou a água.
Partilharei convosco vários textos que nasceram da minha leitura apaixonada de obras de Célestin Freinet, editadas pela Martins Fontes. Freinet, pedagogo francês do início do século XX, dedicou-se a conceber métodos educativos inovadores, centrados na criança, na cooperação, na expressão livre, na experiência concreta e no sentido da comunidade escolar. A sua pedagogia rejeita a rigidez dos modelos uniformizadores; propõe, antes, uma escola que respira, que interage, que aprende com o ambiente e com a própria vida. Obras como Pedagogia do Bom Senso ou A Educação do Trabalho mostram que aprender não é decorar, mas participar e sentir o mundo. Não surpreende, portanto, que a editora Martins Fontes tenha acolhido este legado, colocando-o ao alcance de professores, educadores e pais que acreditam que ensinar é libertar, e não apenas instruir.
Quando penso em Freinet, não consigo deixar de o relacionar com outros grandes pedagogos que, cada um a seu modo, transformaram a educação numa prática de liberdade: Maria Montessori, ao destacar a autonomia da criança e a importância do ambiente preparado; John Dewey, ao insistir na educação pela experiência, aproximando o conhecimento da vida democrática; Paulo Freire, que fez da pedagogia do oprimido um caminho de emancipação, denunciando a “educação bancária” e propondo o diálogo como base da aprendizagem. Todos eles, à semelhança de Freinet, convergem num ponto essencial: a criança não é um recipiente a encher, mas um ser vivo, pensante e criador, que precisa de ser motivado, respeitado e ouvido.
E aqui falo também como mãe. Tenho um filho sobredotado — e sei, por experiência íntima e exigente, que se não o souberem motivar, as suas notas não reflectem minimamente as suas capacidades. Não é a inteligência que falta, mas o desafio, o estímulo, a compreensão de que a sua mente não segue caminhos comuns. Uma criança sobredotada vive a sua infância como todas as outras, com a fantasia nos olhos e a fragilidade nos gestos; mas sente tudo mais fundo, mais largo, mais intenso. Ri com a inocência própria da infância e, no instante seguinte, chora com a gravidade de quem já pressente dores que muitos adultos ainda ignoram. Nela, a emoção é torrente: ora cristalina e leve, ora devastadora e incontrolável.
Há nela uma estranha dualidade: permanece criança, mas compreende com a lucidez de quem já atravessou o silêncio da maturidade. Carrega perguntas que desarmam, intuições que desconcertam, compaixões que faltam a tantos que se dizem crescidos. E sofre por esse excesso de lucidez, por sentir o peso de um mundo que ainda devia ser apenas brincadeira.
É por isso que educar uma criança sobredotada não é apenas instruí-la, mas acompanhá-la como quem caminha junto de uma chama que arde mais do que o normal: uma chama que ilumina, aquece e inspira, mas que também pode consumir-se se não for cuidada. Freinet recorda-nos que a escola deve ser vida; Montessori, que o ambiente deve respeitar a singularidade; Paulo Freire, que sem diálogo não há libertação. Todos eles, juntos, parecem sussurrar-me ao ouvido: não cales a voz dessa criança, não domestiques a sua sede, não apagues o excesso da sua sensibilidade.
Cabe-me, como mãe, fazer o que é meu dever e obrigação, mas faço-o sobretudo por amor. Amor que não é apenas instinto, mas também decisão, responsabilidade e coragem. Amor que se traduz em paciência diante da intensidade, em humildade diante da genialidade, em gratidão diante do privilégio de aprender todos os dias com um ser humano que, na sua infância maior que a vida, me ensina que a verdadeira sabedoria é nunca deixar de sentir.
Assim se constrói em mim esta caminhada: entre o que vivo, o que penso e o que leio, encontro o fio de uma aprendizagem que nunca se esgota e que me convida, sempre, a querer mais.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
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