"Presença"
Houve um tempo em que o meu coração era marcado pela impaciência. A ânsia de respostas rápidas ardia em mim como um fogo insaciável: queria sinais claros, queria certezas imediatas, queria que Deus me respondesse segundo os meus prazos, como se a eternidade tivesse de se moldar à estreiteza do meu calendário. Recordo esses dias como quem olha para um lugar distante — um tempo em que confundia fé com pressa, confiança com exigência, esperança com ansiedade. Esse tempo, no entanto, já não existe.
Hoje sei que a espera não é vazio, mas plenitude disfarçada. Sei que o silêncio de Deus não é ausência, mas presença encoberta, uma linguagem subtil que não se traduz em palavras, mas em gestos invisíveis de cuidado. A impaciência que outrora me consumia deu lugar a uma serenidade conquistada, não sem lágrimas, não sem lutas, mas profundamente enraizada na certeza de que cada instante da minha vida é habitado por Ele.
Já não espero um “sim” imediato às minhas súplicas, porque compreendi que o verdadeiro dom não se encontra na realização dos meus desejos, mas no encontro com o próprio Doador. A presença de Deus tornou-se para mim uma realidade mais forte do que qualquer resultado: é luz que me guia mesmo quando não sei para onde vou, é força que me ergue quando já não tenho recursos em mim, é paz que brota quando tudo em redor parece desabar. É um segredo silencioso que me sustenta, mesmo quando a vida me pede mais do que penso poder dar.
Percebi que a ânsia por respostas era, na verdade, uma forma de resistência ao mistério. Queria controlar o que nunca poderia controlar, queria dominar aquilo que só se pode receber. Deus, no entanto, não me cedeu ao capricho da pressa; ofereceu-me algo infinitamente maior: ensinou-me a confiar. E essa confiança, lentamente, foi transformando a minha relação com a espera. O tempo, que antes me parecia um inimigo implacável, tornou-se agora um mestre silencioso. Descobri que o intervalo entre o pedido e a resposta é fértil, que o silêncio que antes me angustiava é fértil, que até a demora é fértil — porque é nesses intervalos que a fé amadurece, que o coração aprende a distinguir o essencial do acessório, que a alma se abre para o que realmente importa.
Hoje já não me sinto órfã quando não recebo aquilo que pedi. Pelo contrário: sei que, na ausência do que desejo, há sempre uma presença maior que me envolve. Já não temo o “não” ou o “espera”, porque compreendi que cada resposta divina, mesmo a que não entendo, é um convite a ver mais longe, a crescer para dentro, a confiar para além da lógica. A vida com Deus não é uma sucessão de favores concedidos, mas um vínculo inquebrável que não se mede em prazos nem em resultados.
Há uma liberdade imensa que nasce quando deixamos de exigir sinais para acreditar. Quando compreendemos que o maior de todos os milagres não está em obter o que pedimos, mas em nunca caminharmos sozinhos. Essa é a certeza que hoje me guia: posso não ter todas as respostas, mas tenho sempre a presença. Posso não conhecer o futuro, mas sei Quem caminha comigo. Posso não ver a luz ao fundo do túnel, mas sei que a própria escuridão é habitada por Deus.
E é nesta convicção que vivo agora: a ânsia pertence ao passado, a serenidade pertence ao presente. Já não necessito de certezas imediatas, porque aprendi a encontrar sentido no silêncio e valor no intervalo. A presença de Deus basta-me. Basta-me quando recebo e quando perco, quando compreendo e quando me confundo, quando avanço e quando sou chamada a esperar. Basta-me porque é total, porque é fiel, porque é amor.
Houve um tempo em que vivia na ânsia das respostas rápidas. Esse tempo já não existe. Hoje vivo na confiança da presença eterna. E sei, com a força tranquila de quem foi transformada, que nada me falta — porque Deus está comigo, e isso é suficiente.
"Texto de autoria de(tecehistorias ) <Marisa>, publicado em Fios de Imaginação(@"fios de imaginação") (@tecehistorias)."
Comentários
Enviar um comentário