"A Carta de Aristeias"

 

A Carta de Aristeias


Contexto histórico e autoria

A Carta de Aristeias a Filócrates é uma obra judaico-helenística composta provavelmente em Alexandria, entre 170 e 130 a.C.
O autor apresenta-se como Aristeias, um funcionário da corte do rei Ptolemeu II Filadelfo (285–246 a.C.), mas a maior parte dos estudiosos reconhece que se trata de um pseudónimo literário — um judeu culto que escreve em nome de um grego para dar autoridade à narrativa.

O texto é uma epístola apologética e histórica que narra o processo de tradução da Torá (os cinco livros de Moisés) do hebraico para o grego, a pedido do rei de Alexandria.
Este episódio é o fundamento tradicional da Septuaginta, a primeira tradução da Bíblia hebraica para outra língua, feita por cerca de setenta e dois sábios judeus — daí o nome LXX.


Estrutura e resumo da narrativa

A obra divide-se em três grandes partes:

  1. Introdução diplomática: Aristeias, cortesão grego, convence o rei Ptolemeu II a libertar os judeus escravizados no Egipto e a solicitar a tradução da Lei judaica.

  2. Encontro com o sumo sacerdote Eleazar: Aristeias é enviado a Jerusalém, onde dialoga com o sumo sacerdote, que lhe expõe as leis e a filosofia moral dos judeus.

  3. A tradução em Alexandria: setenta e dois sábios são escolhidos (seis de cada tribo de Israel) e realizam a tradução milagrosamente concordante, inspirada por Deus.


O rei e o projecto da tradução

Ptolemeu II, amante do saber, deseja que todas as leis do mundo estejam reunidas na sua Biblioteca de Alexandria.
Ao ouvir falar da Lei dos judeus, decide incluí-la.
Aristeias intercede junto do rei para libertar os judeus escravizados — acto que o texto descreve como gesto de piedade e justiça.

O rei escreve então uma carta ao sumo sacerdote Eleazar, pedindo tradutores competentes e exemplares fiéis da Lei.


O encontro com Eleazar

Aristeias descreve com admiração o Templo de Jerusalém, o culto, e a piedade do povo.
Eleazar é retratado como sábio, justo e profundamente racional — símbolo do monoteísmo ético.

Segue-se uma longa exposição moral em que o sacerdote explica o sentido das leis mosaicas:

  • a pureza ritual como pedagogia espiritual;

  • o simbolismo dos animais puros e impuros;

  • o ideal de sabedoria e moderação que deve guiar os governantes.

Estas secções são de alto valor filosófico: procuram mostrar que a Lei judaica é racional e universal, em harmonia com a filosofia estóica e platónica.


A tradução milagrosa

Os setenta e dois tradutores viajam a Alexandria, são recebidos com honra e instalam-se na ilha de Faros, junto ao farol lendário.
Durante setenta e dois dias, traduzem toda a Torá.
Segundo Aristeias, cada um trabalha separadamente, mas todos produzem o mesmo texto, palavra por palavra — sinal da inspiração divina.

A tradução é lida publicamente diante do rei e dos sábios gregos, que ficam maravilhados com a profundidade e beleza do texto.
O rei ordena que o livro seja guardado na biblioteca e que se faça maldição sobre quem alterar uma só palavra.


Significado teológico e cultural

A Carta de Aristeias é, antes de tudo, uma apologia da sabedoria judaica perante o mundo grego.
Pretende demonstrar que:

  • a Lei de Moisés é superior às filosofias humanas,

  • o Deus de Israel é único, racional e universal,

  • e que a revelação pode dialogar com a razão.

A tradução da Torá é apresentada como acto providencial: Deus permite que a Sua Palavra se torne acessível ao mundo inteiro.
É a primeira expressão de universalização da revelação bíblica, antecipando o ideal cristão de “Palavra encarnada em todas as línguas”.


Filosofia e ética da Lei

O discurso de Eleazar é uma das passagens mais ricas da literatura religiosa antiga.
Ele interpreta as leis mosaicas alegoricamente, mostrando o seu valor moral:

  • As proibições alimentares educam o discernimento e a moderação.

  • O sábado é símbolo da harmonia cósmica e do repouso interior.

  • As leis da pureza recordam a distinção entre o sagrado e o profano.

  • O culto é exercício de sabedoria, não de superstição.

Esta leitura racional e simbólica marca uma viragem decisiva: é a primeira tentativa sistemática de teologia moral judaica em linguagem filosófica.


Idolatria e relação com as imagens

A Carta de Aristeias contém uma crítica discreta, mas clara, à idolatria pagã.
O autor sublinha que o Deus dos hebreus é invisível, incorpóreo e eterno, e que as imagens de pedra ou ouro são produtos da ignorância humana.
Contudo, essa crítica visa a adoração das coisas criadas, não a arte em si.

Mais tarde, a tradição católica distinguirá — como já fizemos noutros textos — entre:

  • idolatria, que adora a matéria;

  • e veneração, que usa a imagem como mediação para o transcendente.

Assim, o pensamento helenístico-judaico da Carta prepara o terreno para esta distinção cristã: o símbolo é legítimo quando remete para o Invisível.


Transmissão e influência

  • O texto foi conservado em grego e traduzido para latim, siríaco e arménio.

  • É citado por Josefo, Fílon de Alexandria e Clemente de Alexandria, que o consideravam autêntico.

  • Os cristãos viram nele um prenúncio da evangelização universal — o Verbo traduzido em todas as línguas.

  • A narrativa inspirou também a tradição judaica de que a Septuaginta é obra inspirada pelo Espírito Santo.


Conclusão crítica

A Carta de Aristeias é, acima de tudo, um manifesto do diálogo entre fé e razão, entre Jerusalém e Atenas.
Sob o pretexto diplomático da tradução, o autor apresenta a Lei de Moisés como fonte de sabedoria racional e ética universal.

“A sabedoria dos hebreus não é invenção dos homens,
mas dom do Deus que criou todas as coisas.”

O texto mostra que o monoteísmo bíblico podia ser expresso com elegância na língua de Homero e de Platão — abrindo caminho ao cristianismo, que faria o mesmo com o Evangelho.

A Carta de Aristeias é, pois, um documento de reconciliação cultural:
a revelação que se torna tradução, a Lei que se torna Logos.
E assim, o que nasceu em hebraico fala ao mundo inteiro — primeiro em grego, depois em todas as línguas da terra.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

"Agora"