"Preciso de tempo"

 Há em mim uma espécie de biblioteca viva que nunca fecha portas, apenas acumula luz e pó ao mesmo tempo. Prateleiras invisíveis onde se alinham pensamentos por acabar, reflexões que ainda respiram, poemas que nasceram de madrugada e ficaram à espera de corpo, ideias que me atravessaram como relâmpagos e não encontraram ainda o chão onde cair.

Tenho tanto.

Tanto que me habita, tanto que me pede forma, tanto que insiste em não ser esquecido.

Há páginas inteiras de mim que ainda não foram escritas — não por ausência de palavra, mas por excesso de vida. Porque viver, às vezes, ocupa o espaço onde escrever aconteceria. E eu estou inteira na vida: no trabalho que me chama, no voluntariado que me alarga, nas mãos pequenas que me procuram todos os dias, no amor quotidiano que construo com o homem que escolhi — esse compromisso silencioso que não se publica, mas se prova.

O tempo… o tempo não falta — ele escolhe.

E escolhe sempre aquilo que é mais essencial.

E eu aceito essa hierarquia com uma lucidez que me custou a conquistar.

Os meus filhos não podem ser um intervalo entre pensamentos brilhantes. O meu marido não pode ser uma nota de rodapé naquilo que eu produzo. O amor não pode competir com a expressão. Há verdades que não se escrevem — vivem-se. Há obras que não se publicam — constroem-se no invisível dos dias repetidos.

E, no entanto, dentro de mim, há um murmúrio constante.

Uma espécie de urgência serena.

Como se tudo aquilo que vivi — as leituras, os estudos, as dores atravessadas como peregrina de mim mesma, os encontros, as quedas, as reconstruções — pedisse testemunho. Não por vaidade, mas por sentido. Porque o que não é organizado corre o risco de se dissipar, e o que se dissipa perde a oportunidade de tocar o outro.

E eu sei que posso tocar.

Não porque sei mais, mas porque vivi com densidade.

Carrego reflexões que nasceram do confronto entre o humano e o divino, entre o limite e o infinito, entre aquilo que se aprende nos livros e aquilo que só se aprende quando a vida nos rasga e volta a coser com outro fio. Trago em mim teologia que não é apenas estudada, mas sentida; psicologia que não é apenas compreendida, mas atravessada; poesia que não é apenas escrita, mas necessária.

E tudo isso — tudo isso — aguarda.

Não como peso.

Mas como promessa.

Talvez o erro não esteja na falta de tempo, mas na forma como imaginamos o tempo necessário. Talvez eu não precise de grandes blocos, de silêncios perfeitos, de condições ideais que raramente chegam. Talvez precise apenas de pequenos actos de fidelidade. Fragmentos. Instantes. Um parágrafo entre tarefas. Uma ideia anotada à pressa. Um verso escrito enquanto a casa respira.

Talvez a minha obra não tenha de nascer como um grito contínuo, mas como uma respiração paciente.

Porque há uma sabedoria escondida no ritmo da vida que levo: ela ensina-me a escolher o essencial, a depurar o supérfluo, a escrever apenas aquilo que realmente insiste em permanecer. Não escrevo tudo — escrevo o que resiste ao tempo dentro de mim.

E isso basta.

Não preciso de provar nada ao mundo. Não preciso de transformar tudo o que penso em conteúdo, tudo o que sinto em discurso. Há uma dignidade profunda em guardar, em deixar maturar, em permitir que certas ideias envelheçam antes de nascerem.

Mas também há uma responsabilidade.

A de não deixar morrer aquilo que me foi confiado interiormente.

E talvez o equilíbrio esteja aqui: entre a entrega total à vida concreta — aos meus, ao meu compromisso, ao meu lugar no mundo — e a fidelidade discreta àquilo que em mim pede expressão.

Sem culpa.

Sem pressa.

Sem abandono.

Eu não sou apenas o que produzo.

Mas também não posso ignorar aquilo que em mim quer criar.

E assim, aceito esta tensão como parte da minha vocação: viver profundamente e, quando possível, traduzir essa profundidade em palavras. Mesmo que poucas. Mesmo que tardias. Mesmo que imperfeitas.

Porque o que é verdadeiro não se perde.

Apenas espera o momento certo de se tornar visível.

Tenho cadernos inteiros, páginas que respiram histórias que não cabem no silêncio. Durante anos, hesitei em partilhar, porque sabia que palavras têm poder — e, quando mal usadas, podem tornar-se armas. Escolhia com cuidado: aquilo que escrevia podia ser lido, mas não deturpado, podia existir, mas não ferir. Protegia-me dessa violência subtil, silenciosa, de quem transforma a verdade alheia em fábula conveniente.

Agora, quero abrir algumas portas guardadas. Começo pelos resumos de Santo Agostinho. Porque ele disse o essencial, e disse de forma que atravessa séculos:

“O Senhor, ensina-me a conhecer-Te, e a conhecer-me a mim mesmo.”

A força desta frase não é apenas na devoção; é na vida. Porque só conhecendo Deus podemos conhecer verdadeiramente a nós mesmos, e só conhecendo-nos a nós mesmos podemos realmente compreender a presença divina que nos habita. Santo Agostinho recorda-nos que “Tu estás mais interior a mim do que a parte mais íntima de mim mesmo.” — e é aqui, no silêncio do nosso próprio coração, que a verdade se revela.

Durante anos, escrevi para mim mesma. Escrevi para que o meu “eu” não se perdesse nos ruídos do mundo, para que as minhas experiências, reflexões, poemas, odes e estudos não fossem distorcidos. Escolhi deixar invisível o que poderia ser mal interpretado, e em troca aprendi a olhar para mim mesma com uma paciência quase sagrada.

Agora, quero que conheçam o que ele disse. Quero que aprendam como ele escreveu. Conhece-me eu, para conhecer-te. Não apenas frase solta, mas convite profundo: olhar para dentro de si, perceber os limites, os medos, os desejos, as contradições; e, nesse olhar, encontrar a presença de Deus que sustenta tudo.

Santo Agostinho lembra-nos também que “o coração humano é inquieto até encontrar repouso em Deus.” Cada lágrima, cada alegria, cada derrota, cada conquista, cada palavra escrita ou calada — tudo é parte desse movimento de encontro, de retorno. A vida que vivi, os caminhos que percorri, o tempo que não tive e que mesmo assim organizei para os meus filhos e para o meu marido, tudo isso só faz sentido quando reconheço que o centro não está fora, mas dentro — e, dentro, Deus me habita.

Por isso, estes resumos não são apenas informação. São convites: para olhar, para refletir, para aprender a disciplina da interioridade, para descobrir que conhecer a si mesmo é, de facto, o primeiro passo para conhecer o divino.

“Retorna a ti mesmo; volta-te para dentro, para a tua consciência, lá onde Deus te habita.” Aqui, no meu caderno, entre poemas e reflexões, encontro o mesmo chamado. Cada página é um convite a que também tu, leitor, te aproximes do teu próprio coração. Para que possas aprender a ouvir, a perceber, a acolher o que és, e a encontrar, nesse acto, o que sempre esteve a teu lado: a presença silenciosa de Deus.

Este é o lugar onde tudo converge: a vida quotidiana, o cuidado com os que amo, as dores atravessadas, os estudos, a poesia, a fé, o conhecimento — tudo entregue à luz da contemplação interior. E agora, sim, posso partilhar. Não para que me compreendam, não para que me julguem, mas para que a palavra cumprimente o coração de quem lê. Para que cada um possa dizer, no fundo de si: “Conhece-me eu, para conhecer-te.”

Porque, no fim, o verdadeiro ensino de Agostinho não está nas notas ou resumos que anotamos. Está na coragem de olhar para dentro e reconhecer o que somos, e na humildade de permitir que Deus nos conheça melhor do que nós mesmos jamais poderíamos.


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