"Luz que Guia"
Os meus dias são sempre pautados pelo amor incondicional dos meus filhos. É como se cada amanhecer trouxesse consigo uma nova oportunidade de viver e sentir a essência do que realmente importa, uma graça divina que se manifesta nos gestos mais simples. Hoje, ao abrir os olhos, fui recebida por aquela energia única que só o amor sincero pode transmitir. O meu filho mais novo, com os seus nove anos de inocência e ternura, deitou-se no meu braço, como quem encontra o lugar mais seguro do mundo. Olhou-me com aquele olhar que derrete qualquer coração de mãe e disse: “Mãe, sabias que te amo infinito?” O peso dessas palavras foi como um bálsamo para a alma. Pouco depois, a minha filha mais velha, com os seus 21 anos de maturidade, abraçou-me pelas costas numa conchinha que não precisava de explicação. Sussurrou: “Também te amo, mãe.”
Aquele momento tornou-se um retrato perfeito do amor que nos une – profundo, intemporal e inquebrável. Ficámos ali, juntos, durante o que pareceram breves instantes, mas que no meu coração durarão para sempre. Não dissemos mais nada. A nossa comunicação não precisava de palavras; bastava o silêncio, um silêncio cúmplice, cheio de paz e conexão. Enquanto o tempo seguia o seu curso, eu sabia que aquela era a verdadeira riqueza da vida: os laços de amor, os momentos que nada nem ninguém pode apagar.
Mas os deveres chamavam por mim. A agenda diária, sempre apressada e exigente, precisava de atenção. Levantei-me com relutância, mas com o coração inundado por aquela força silenciosa que só o amor de mãe consegue proporcionar. No entanto, o dia, como tantas vezes acontece, tinha os seus imprevistos guardados. Ao chegar ao local da minha primeira obrigação, deparei-me com um atraso. Em vez de sentir frustração, aceitei o contratempo como uma oportunidade, um pequeno intervalo de tempo para preencher com algo verdadeiramente significativo. Aproveitei para ir ao encontro de uma amiga muito querida, a minha companheira de tantas jornadas no voluntariado, alguém com quem partilho os valores de dedicação e altruísmo. É incrível como algumas conversas têm o poder de nos renovar. Falámos de vida, de fé, de sonhos e de desafios, numa troca rica e profundamente gratificante. Foi como alimentar a alma, um momento de crescimento mútuo que me fez lembrar que é na partilha que nos tornamos mais fortes.
Quando a hora chegou, regressei às minhas tarefas. Cumpri o que tinha de ser feito, encontrando no ritmo do trabalho um equilíbrio entre dever e satisfação. No entanto, a parte mais esperada do dia aproximava-se: o regresso a casa para o almoço em família. É nestes momentos, à volta da mesa, que encontro a verdadeira harmonia. As conversas fluem naturalmente, as gargalhadas ecoam pela casa, e até os silêncios são acolhedores. É um espaço sagrado, onde se fortalecem os laços que nos sustentam. Entre refeições partilhadas e risos sinceros, encontrei a paz que me prepara para a próxima etapa do dia.
A tarde trouxe consigo a oportunidade de refocar no espiritual, algo que ocupa um lugar central na minha vida. Preparei-me, tanto por dentro como por fora, para o primeiro sábado do mês – um momento dedicado ao terço, que o movimento da Mensagem de Fátima organiza com tanto cuidado. Vesti a minha melhor roupa, não por vaidade, mas como expressão de respeito e reverência. O terço não é apenas uma oração; é um diálogo íntimo com Deus e com Maria, uma forma de alimentar a minha fé, fortalecer a minha esperança e encontrar propósito. Como peregrina, este compromisso é mais do que devoção: é uma expressão de amor, uma entrega profunda que se renova a cada mistério recitado.
Participar no terço é também praticar os ensinamentos de Jesus, algo que tento fazer com paixão e generosidade. A homilia deste dia tocou-me particularmente: “Que possamos refletir a luz de Jesus e brilhar sem jamais tentar apagar a luz do outro.” Esta mensagem ressoou profundamente no meu coração. Somos todos chamados à santidade, mas não como indivíduos isolados. A santidade é um convite coletivo, um chamado a sermos luz para os outros enquanto reconhecemos e celebramos as suas luzes também. Vivemos num mundo que muitas vezes tenta nos dividir, mas a verdadeira essência de Cristo está na comunhão, na capacidade de nos elevarmos juntos, como estrelas num céu partilhado.
Ao longo da eucaristia, senti uma profunda gratidão por tudo o que vivi neste dia. Dos abraços matinais aos encontros inesperados, das responsabilidades cumpridas às orações partilhadas, tudo apontava para uma verdade essencial: somos convidados a amar. Amar com generosidade, com altruísmo, com uma fé inabalável. Quero que a minha vida seja isso – um reflexo, ainda que imperfeito, da luz de Jesus. Que os meus atos sejam sementes de bondade, que as minhas palavras inspirem, que as minhas falhas me ensinem e que os meus gestos sejam ecos desse amor infinito que recebo todos os dias.
Hoje, deito-me com o coração tranquilo. Sei que não sou perfeita, mas também sei que me esforço. E, talvez, aos olhos de Deus, isso seja o suficiente. Porque, afinal, viver é isso: brilhar com a luz que temos e ajudar os outros a encontrarem a sua própria luz.
Que Deus me dê sempre a capacidade de escutar, apoiar e caminhar com aqueles que cruzam o meu caminho. Que Ele me conceda sabedoria para enxergar além das aparências e o coração aberto para acolher cada alma com a ternura que tanto precisamos partilhar. Amanhã, o dia volta a estar repleto de responsabilidades que acolho com gratidão e propósito: a catequese antes da missa, um momento para plantar as sementes da fé nos corações das crianças, e a reunião dos mensageiros, onde nos fortalecemos como comunidade na presença de Deus.
Nestas reuniões, temos aprendido a compreender que o nosso Deus é amor puro, amor que não exclui, que não impõe, mas que nos ensina com misericórdia e justiça. Aprendemos a reconhecer que o mal não está em cada esquina à espreita para nos derrubar, mas sim nas nossas escolhas quando nos afastamos de Deus e do Seu amor. Se erramos, a responsabilidade é nossa. Não podemos colocar sobre o demónio aquilo que são as consequências das nossas próprias atitudes e decisões. Deus, na Sua infinita sabedoria, deu-nos o livre-arbítrio, um dom precioso e, ao mesmo tempo, um enorme desafio.
Neste livre-arbítrio está a oportunidade de fazermos escolhas conscientes, que reflitam a luz de Cristo que habita em nós. Que eu nunca me esqueça de usar esta liberdade para escolher o bem, para agir com responsabilidade, e para procurar, acima de tudo, ser reflexo do amor divino. Assim, caminho com a certeza de que, ao esforçar-me para fazer o melhor todos os dias, estou mais perto de cumprir o propósito que Deus desenhou para a minha vida. Deus me livrou de pessoas e acontecimentos.
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